quem não curte uma festança com boca livre, hein?
muita fartura, boa comida, boa bebida, música legal, diversos amigos…aposto que todos vocês aí já desfrutaram de uma maravilha dessas pelo menos uma vez.
por trabalhar com comunicação há um bom tempo, além de ter amigos em vários veículos de mídia, toda hora aparece um convite pra boca livre. festas de gravadoras, lançamentos de discos, inauguração de baladas e shows. muitos shows.
então se vc tem algum esquema pra boca livre, não deixe de me convidar. não tenho o hábito de recusar esse tipo de convite.
mas rolou uma ocasião, em que seria melhor ter recusado.
falo da época em que eu trabalhava pra uma operadora de celular. eu fazia o portal deles, e como vendíamos ringtones, o contato com grandes gravadoras era diário.
uma delas, especializada em dance music de baiano favelado, organiza todo ano um festival chamado planet pop. vários artistas que tocam dance music de baiano favelado se juntam e ficam tocando por horas e horas. deve haver um prêmio pro cidadão que consegue ficar até o final, pq o barato ultrapassa os limites do insuportável.
pois bem, numa das edições do glorioso planet pop, toda nossa equipe foi convidada a ir em um camarote com tudo liberado, na banca da gravadora.
a roubada era certa, então um por um, todos nós fomos pulando fora.
“já tenho compromisso”, dizia um. “tenho prova na faculdade”, o outro. “não vai rolar, tenho que levar minha avó na musculação, mas valeu o convite!”. e por aí vai. cada um com suas desculpas e ninguém topou ir ao festival de dance music de baiano favelado.
acontece que o gerente de contas da empresa, o marcel (que tinha uma espantosa semelhança com o sr. incrível) chegou na sala e falou:
marcel: galera, sei que vocês não gostam dessas coisas e tudo mais. mas por favor, a gente precisa que alguém vá. os caras deram um belo camarote pra gente, é muita falta de educação recusar. não precisam ir todos, mas pelo menos algumas pessoas têm que ir. vejam aí quem topa, e até o final do dia eu passo aqui pra dar os convites.
nessa hora todos ficaram sem graça, olhando pro chão, pro teto, pro horizonte e até assobiando. alguns arriscavam se entreolhar, mas era perigoso, pois aí poderia rolar uma imposição do tipo “você vai, e acabou!!”.
mas todos ali já eram crescidos, não podíamos simplesmente bancar os cretinos imaturos e bater o pé negando o convite. era preciso chegar num acordo de quem iria.
fomos por eliminação. quem realmente tinha compromisso, prova, viagem e a puta que pariu, tava descartado.
entre os que tavam apenas de frescura e gaguejaram na hora de inventar desculpas ridículas (me inclua nessa), rolou um paredão no melhor estilo big brother, pra determinar quem se foderia por uma noite inteira.
não é preciso dizer que eu fui escolhido a representar nossa corporação no grande evento.
mas o toque de genialidade, é que além de mim, foram convocados a livinha e o vina. se você acompanha meu blog, sabe que esses dois elementos quase provocaram a minha prisão, no caso do roubo na padaria. além de pelo menos mais duas roubadas federais em que a livinha me enfiou (aqui e aqui).
mas tudo bem, pelo menos era uma boca livre, e dessa vez não corríamos o risco de sermos pegos roubando algo comestível.
era uma sexta feira, e todos os outros planos haviam caído por terra.
a baladex seria no festival de dance music de baianos favelados no via funchal. já conformados, marcamos de nos encontrar por volta das 22 ali mesmo perto do trampo, pra irmos de carro pro local.
tava meio puto e resolvi nem ir pra casa. saí do trampo umas 19 hrs e fui pro bar, onde permaneci até a hora marcada pra nossa saída rumo à noitada. a idéia era chegar no planet pop já completamente alcoolizado, a fim de reduzir os danos provocados pela má qualidade musical, mas acabei não bebendo tanto assim.
nos encontramos e mesmo sóbrio, rumamos para o via funchal.
o fato de não estar bebado, poderia ser amenizado pelo lance da boca livre. caso realmente rolasse uma fartura nababesca, a gente teria como ficar bebado em pouco tempo e o sofrimento seria diminuto. mas até então, tudo era uma incognita.
e se a gente chegasse lá e não tivesse porra nenhuma do prometido? apenas baianos e música ruim? o suicídio seria levado em conta caso o cenário encontrado realmente fosse esse.
muita tensão no caminho, não conseguíamos imaginar um único segundo de diversão nas proximas horas.
chegamos à maldita vila olimpia, e a rua funchal tava infestada. o carro andava a 0,5 km/h e as piores previsões ja estavam começando a se concretizar. depois de um bom tempo, conseguimos parar e o carro, e descemos pra entrar na casa.
nessa hora, achei que havia algo errado. peguei até o ingresso do meu bolso pra conferir se estavamos realmente no dia e local certos, pq o que eu vi ali era uma festa infanto-juvenil. imaginei ser um show do high school musical.
5a série B em peso no planet pop. eu tinha pelo menos o dobro da idade do muleque mais velho ali. era um jardim da infancia em plena madrugada! imaginei que o dr. eugenio chipkevic faria uma festa e tanto ali.
depois de uma sensacional furada na fila, onde fizemos nossa idade valer alguma coisa, entramos naquela merda e levaram a gente pra nossa mesa.
nos deram uma daquelas credenciais de colocar no pescoço. nessa hora pensei “rapaz, isso aqui pra pegar mulher é tiro e queda”. mas olhei em volta e qqer sacadinha mais marota poderia render uma cadeia pra mim, já que a juventude era latente em todas as pessoas ali. exceto nós três.
quando chegamos na mesa, foi como um oásis.
a música tava tenebrosamente ruim, a pivetada infestava todo o lugar, mas aí adentramos ao nosso camarote e vi a mesa armada.
confesso que na hora me senti o tony montana, só que sem os trabucos e o pó. pq de resto, tava tudo la.
um balde gigante de cerveja no gelo, garrafas de whisky, vodka, energéticos, vinhos, até uns rangos meio de veado, tipo mussarela de bufala com tomate seco, carpaccio e coisas assim.
pau no cu de tudo isso, simplesmente abracei o balde de cerveja e virei a primeira long neck como se eu tivesse ficado 28 horas andando no deserto do saara.
eu, livinha e vina fizemos um pacto. ficarmos bebados o mais rapido possível, assim conseguiriamos ver graça em alguma coisa.
de cara limpa, eu pegaria meu lança-chamas e não sobraria um único filho da puta ali.
dito e feito, a gente bebia tanto, e tão rápido, que em coisa de 15 minutos a alegria era total.
livinha, com toda sua sensualidade, xavecou o garçom e além de tudo que tinha na mesa, o cara trazia ainda mais coisa por fora. estávamos na gozolândia.
aí chegou o glorioso marcel, já citado ali em cima como o sr. incrível. e ele nos fez passar uma das grandes vergonhas da noite.
na tentativa de fazer uma média com os caras da gravadora, ele nos chamou e disse.
marcel: pessoal, obrigado por terem vindo, viu? mas vamos lá agradecer ao pessoal pelo convite. é coisa rapida, só pra fazer uma social.
nisso, ele pegou um dos pratos de mussarela de bufala com tomate seco, pra levar pro cara.
fomos atras.
chegamos no camarote dele, e rolou aquela falsidade, abraço, tapinha nas costas e bla bla bla.
marcel: então, trouxemos aqui pra vocês, como gratidão!
e entregou o pratinho de mussarela de bufala.
cara da gravadora: ah, beleza.
e colocou na mesa dele. aí veio a vergonha.
o cara era o dono daquilo tudo, tinha caviar, champagne, mulher pelada e tudo mais que vc pode imaginar na mesa dele. aí me vem um filho da puta trazer um presente que era de graça?
pro caralho com o sr. incrivel, nem o cachorro do cara da gravadora devia comer aquela mussarela de bufala vagabunda.
nisso, olho pro palco, e tem um puta dum arrombado lá em cima.
arrombado: galera, bem vindos ao PLANET….
publico: POPEEEEEEEEE!!
arrombado: PLANET!!!!!!!!!
publico: POPEEEEEEEEEEEE!!!!lç^!!!!!
era demais pra minha cabeça, todos os limites de arrombadice já haviam sido excedidos.
voltamos ruborizados pra mesa, e aí tive uma bela visão.
no camarote ao lado do nosso havia uma senhora potranca. um cavala pra ninguém botar defeito, e pelo menos na aparencia, tinha mais de 18 anos.
era uma esperança e tanto. já embriagado, abracei a livinha e falei.
eu: livinha, ta vendo aquela ali? (e apontado na maior, sem cerimonia)
livinha: to sim
eu: to indo la. e pode anotar: vou faturar!!~~!
livinha: hahaha
eu: estou falando serio, eu vim com vocês, mas vou embora com ela!
não entendi o pq da risada dela, mas tudo bem.
saquei mais uma cerveja, estufei o peito pra deixar minha credencial bombando e colei na gatinha.
não lembro exatamente de nenhuma palavra que eu falei. mas acredito ter lançado os melhores galanteios do mundo, no estilo julio iglesias. pura sedução, ao som de crazy frog. não tinha como dar errado.
acontece que a cavala ainda não tinha caído na minha, era um misto de desconfiança e desconforto. eu falava, falava, falava e bebia, bebia, bebia. e nada dela me responder.
na sequencia, ela saiu da mesa.
“ah, beleza, foi no banheiro” eu pensei. e sentei com mais uma cerveja pra espera-la voltar. la na outra ponta, livinha e vina rindo pra caralho de mim. continuava sem entender nada, mas foda-se. eu sou mais eu.
passados alguns minutos, e aquele monumento em forma de mulher voltou.
la fui eu novamente encher a orelha dela com groselhas sedutoras. falei, falei, falei, falei, mostrei a credencial, ofereci tudo que tinha na mesa pra ela. e nada. nem uma resposta, por mais negativa que fosse. era puro nojo a cara dela.
mas aí ja tinha virado questão de honra. aquela piranha teria que falar comigo, por bem ou por mal. agora que eu nao desistiria mesmo.
novamente, ela saiu da mesa.
ela não tava bebendo nada, pq tantas indas ao banheiro? será que a vadia tava com caganeira em pleno planet pop?
mesmo com essa dúvida, assim que ela retornou, fui la em mais uma tentativa de sapeca-la.
nesse momento, colei nela e vi um sorriso. “caralho, agora vai!!!”, pensei na hora.
e ja lancei uma piscadela de olho.
foi quando senti três toques no meu ombro, como alguem me chamando.
mas não era tapinhas normais, foram três marretadas servidas.
“porra, quem ousa interromper meu processo de sedução?!?”. fiquei puto e simplesmente empurrei aquela mão do meu ombro sem nem olhar. fiz um movimento semelhante àquele quando vc vai tirar as caspas que caem no ombro. puro desprezo.
mas aí vieram mais três marteladas, e mais fortes. até tombei pro lado.
e o sorriso da garota lá, estampado no rosto.
me virei, e não vi nada além de um terno e uma gravata. “porra, que merda é essa?”
e olhei pra cima.
o que vi ali, foi um crioulo engravatado de pelo menos 2,60 mts de altura. o negro tinha proporções jamais vistas. ele deixava o shaquille o’neal parecendo o nelson ned.
o maluco então abaixou e me falou.
crioulo: amigão, boa noite. se você dirigir mais uma palavra pra essa moça, apenas mais uma, eu te jogo lá embaixo, você entendeu?
arregalei o olho e fiquei sobrio na hora. uma simples ameaça daquela muralha africana foi suficiente pra me apavorar.
olhei pra baixo, e nosso camarote estava a uma altura consideravel do chão.
agora quem estava na iminencia de uma caganeira sem limites era eu.
tudo fazia sentido. desde as saídas da garota, que na verdade tava indo reclamar de mim pro segurança, ate o sorriso dela no final, feliz por ver minha fodeção.
lógico que atendi à ordem do negão, a insanidade não havia tomado conta de mim ainda.
sentei e fiquei bem quietinho, apenas observado a livinha e o vina passando mal de rir da minha cara. as risadas deles eram mais altas do que o som do cuzão que tava no palco aquela hora.
quando eles se cansaram da minha desgraça, resolveram que era a hora de irmos embora.
claro que topei, não tinha mais nada que eu pudesse fazer ali, a noite estava literalmente acabada pra mim.
mas eu não poderia sair derrotado, a afronta do segurança somada ao toco da morte que levei daquela biatch haviam mexido com meus brios. eu não dormiria se saísse assim, sem nenhuma vitória.
pois no caminho até a saída, vi algo que poderia nos salvar.
na saída do camarote pra pista, havia um pequena confusão. um aglomerado de pequenos arrombados que queriam entrar nos camarotes pra desfrutar daquela boca livre. mas claro que nenhum deles possuía o que nós possuíamos: as credenciais.
aquele objeto era desejado por todos ali, as nós estavamos indo embora. de nada valiam mais pra gente.
e aí veio o clique:
eu: caralho, vamos vender essa merda!
livinha + vina: puta que pariu, vamos!
saímos do camarote e no meio da confusão de pivetes, eu puxei um pelo braço.
eu: aê muleque, ta a fim de subir no camarote?
muleque otário: logico!!!!!!!
eu: seguinte, cara, TÁ CHEIO DE MULHER LÁ EM CIMA, vc não vai querer perder essa né?
muleque otário: meu deus do céu, o que preciso fazer, tio????!?!?!?
eu: temos credenciais pra você e pros seus amiguinhos, é só comprar da gente! (nisso peguei as 3 credenciais e mostrei pro pivete, que foi à loucura)
muleque otário: nossa, quanto custa?
eu: me dá tudo que você tem aí!!!!!
eu tava transtornado, toda a frustração pela bitch e pelo segurança tavam sendo descontadas no pequeno trouxa.
ele sacou 30 reais. eu ri e falei:
eu: vc ta louco, né? pega mais, mais!!!! são 3 credenciais!
muleque otário: claro claro, desculpa, peraí
ele chamou os amigos, fizeram uma vaquinha e juntaram incríveis 120 reais.
topamos na hora, entreguei os 3 artefactos pro pivete e saímos vazados dali com a grana dele.
o que ele nao sabia: pra subir ao camarote, era necessaria credencial MAIS o ingresso, coisa que ele não tinha.
o arrombado junior provavelmente ficou a ver navios, 120 reais mais pobre e misturado à ralé a noite toda.
o meu objetivo inicial não foi atingido, óbvio. mas saí de lá feliz, alguém pagou o pato pela minha derrota e isso foi suficiente pra devolver minha auto-estima e mantê-la em alta por um bom tempo.